Você sabe se o seu filho está com anemia?

Provavelmente não. Porque na maioria dos casos, a anemia infantil não tem sintomas óbvios nas fases iniciais. A criança parece normal, brinca, ri, dorme, mas o desenvolvimento neurológico e motor está sendo comprometido silenciosamente.

Em uma pesquisa publicada no Jornal de Pediatria (Elsevier), hoje com mais de 158 citações científicas: um dos trabalhos mais citados de toda a minha carreira, avaliamos crianças em creches no Paraná e encontramos uma prevalência de 34,7% de anemia. Quase 1 em cada 3 crianças estava com anemia. E a maioria dos pais não sabia.

34,7%

de prevalência de anemia entre crianças em creches do Paraná, dado do estudo publicado no Jornal de Pediatria, com 158+ citações científicas. A anemia ferropriva ainda é a deficiência nutricional mais comum na infância no Brasil.

Por que a anemia infantil é tão comum?

O Brasil tem feito avanços significativos nas últimas décadas, mas a anemia ferropriva (por deficiência de ferro) ainda é a deficiência nutricional mais prevalente na infância, especialmente entre menores de 2 anos.

Os fatores que identificamos no estudo como principais preditores de anemia:

  • Idade inferior a 24 meses: o período de maior risco, coincidindo com a transição do leite para a alimentação complementar
  • Sexo masculino: meninos apresentaram prevalência significativamente maior no estudo
  • Não consumir carne regularmente: o ferro heme (de origem animal) é absorvido com muito maior eficiência que o ferro vegetal
  • Não consumir leguminosas (feijão, lentilha): importantes fontes de ferro não-heme
  • Não consumir folhas verde-escuras: espinafre, couve, rúcula, ricas em ferro e folato
  • Mãe jovem (menos de 28 anos): possivelmente associado a menor conhecimento sobre alimentação complementar adequada

Como o ferro é absorvido, e por que isso importa

Existem dois tipos de ferro na alimentação, com taxas de absorção bem diferentes:

Ferro heme (origem animal): presente em carnes vermelhas, fígado, frango e peixe. Absorção de 15 a 35%: alta eficiência, independente do restante da refeição.

Ferro não-heme (origem vegetal): presente em feijão, lentilha, espinafre, couve, aveia, grão-de-bico. Absorção de 2 a 20%: variável, mas potencializada por vitamina C.

A estratégia prática é simples: servir fontes de ferro não-heme junto com vitamina C. Uma colher de suco de limão no feijão, ou uma fruta cítrica de sobremesa, pode aumentar a absorção do ferro vegetal em até 3 vezes.

E o inverso também é verdade: chá, café e leite inibem a absorção de ferro quando consumidos junto às refeições. Muitas famílias oferecem leite no almoço sem saber que estão comprometendo a absorção do ferro da refeição inteira.

O feijão com laranja de sobremesa não é coincidência, é sabedoria nutricional que a culinária brasileira acertou antes da ciência confirmar.
Dra. Claudia Choma · Consultório, dezembro 2025
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Os sinais de alerta que os pais precisam conhecer

A anemia ferropriva se manifesta de forma gradual, raramente com um sintoma isolado e claro. Os sinais mais comuns que aparecem juntos:

  • Palidez: pele, mucosa dos lábios e conjuntiva ocular levemente esbranquiçada
  • Cansaço fácil e irritabilidade sem causa aparente
  • Falta de apetite: um círculo vicioso que agrava a deficiência
  • Atraso no desenvolvimento motor (sentar, engatinhar, andar dentro do esperado)
  • Atraso na fala e no desenvolvimento cognitivo
  • Maior susceptibilidade a infecções recorrentes

Em bebês, existe um sinal específico que merece atenção: a criança prefere mamar ao invés de comer alimentos sólidos durante a introdução alimentar. O leite materno tem ferro em quantidade pequena, o suficiente para os primeiros 6 meses, mas insuficiente a partir daí. Se a criança está recusando sólidos e mamando muito depois dos 8–9 meses, vale investigar.

O cardápio anti-anemia para crianças de 6 meses a 3 anos

A prevenção começa no prato, e é mais simples do que parece:

Diariamente:

  • Carne vermelha ou fígado (3× por semana), frango ou peixe (nos outros dias)
  • Feijão, lentilha ou ervilha (1× ao dia)
  • Folha verde-escura (couve, espinafre, agrião) na sopa ou amassada

Em cada refeição com ferro vegetal:

  • Fruta cítrica de sobremesa (laranja, acerola, caju, kiwi)
  • Ou tempero com limão no feijão ou na sopa

Evitar junto às refeições:

  • Chá, café, refrigerante
  • Excesso de leite (não mais que 500 mL por dia após 1 ano)
Dica de consultório

Suplementação: quando e como?

O Ministério da Saúde recomenda suplementação profilática de ferro para todos os bebês a partir do 6º mês (quando em aleitamento materno exclusivo) até os 24 meses. A dose adequada varia com o peso e a faixa etária, não inicie suplementação sem orientação, pois ferro em excesso também é prejudicial. Converse com o pediatra ou nutricionista do seu filho.

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Bebês prematuros: atenção redobrada

Em uma pesquisa publicada na Revista Paulista de Pediatria em 2022, acompanhamos 135 crianças menores de 2 anos nascidas prematuras no Hospital Universitário de Curitiba. Identificamos que padrões alimentares não saudáveis foram significativamente mais frequentes em bebês de mães mais jovens e com menor idade gestacional ao nascer.

Bebês prematuros nascem com reservas de ferro menores, o acúmulo de ferro pelo feto acontece principalmente no terceiro trimestre. Por isso, quanto mais prematuro o bebê, mais personalizada precisa ser a orientação nutricional, e a suplementação costuma começar mais cedo.

Pra fechar

A anemia ferropriva é silenciosa, prevalente e prevenível. Com um cardápio bem estruturado, combinações inteligentes de alimentos e, quando indicado, suplementação orientada por profissional, é possível proteger o desenvolvimento do seu filho de forma concreta e sem dramatismo.

Se você tem dúvida sobre a alimentação do seu filho ou quer verificar se ele está com os níveis de ferro adequados, um hemograma completo pedido pelo pediatra é o ponto de partida. Atendo crianças de 0 a 3 anos presencialmente em Curitiba e por videochamada para o Brasil e o exterior.

Perguntas frequentes
Quais são os sinais de anemia em crianças?

Palidez, cansaço fácil, irritabilidade, falta de apetite e atrasos no desenvolvimento motor e da fala. Nas fases iniciais costuma não haver sintoma óbvio, por isso a prevenção alimentar e o acompanhamento pediátrico regular importam tanto.

Que alimentos ajudam a prevenir anemia infantil?

Carne vermelha ou fígado cerca de 3 vezes por semana, feijão ou lentilha diariamente, folhas verde-escuras e fruta cítrica de sobremesa, que potencializa a absorção do ferro vegetal. Chá, café e leite junto das refeições atrapalham essa absorção.

Anemia infantil é comum no Brasil?

Sim. Em pesquisa que publicamos no Jornal de Pediatria, encontramos prevalência de 34,7% em crianças de creches do Paraná. A anemia ferropriva segue sendo a deficiência nutricional mais comum da infância brasileira.

Sobre quem escreveu
Dra. Claudia Choma

Nutricionista Materno-Infantil há mais de 37 anos. Pós-doutora pelo IARC/OMS (Lyon, França). Doutora pela UFPR. Ex-Professora Titular do Departamento de Nutrição da UFPR (1992–2026). Pesquisadora da prevalência de anemia infantil no Brasil, publicação no Jornal de Pediatria com 158+ citações. CRN 8-320.