Provavelmente você já recebeu uma lista de alimentos proibidos na gravidez. Talvez do obstetra, de um grupo de WhatsApp de mães, ou de algum perfil nas redes sociais. O problema é que boa parte dessas informações é equivocada, exagerada ou simplesmente desatualizada.

Com mais de 37 anos de experiência no atendimento a gestantes, e após um pós-doutorado no IARC, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da OMS, em Lyon, posso afirmar com segurança: o que mais prejudica a alimentação durante a gestação não é o que as mulheres comem. É a desinformação sobre o que elas acreditam não poder comer.

O que a pesquisa de 2024 mostrou

Em estudo publicado na Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil em 2024, avaliamos a dieta de 214 gestantes em Curitiba e região. Um dos achados mais relevantes: os alimentos ultraprocessados representaram quase 27% de toda a energia consumida pelas participantes.

+2,7%

de aumento no risco de o bebê nascer grande para a idade gestacional para cada 1% a mais de ultraprocessados na dieta. Bebês GIG têm maior risco de complicações no parto e maior propensão a obesidade e diabetes na vida adulta.

O que são ultraprocessados, na prática

Não se trata de veneno. Trata-se de produtos que fazem parte do cotidiano de praticamente todas as famílias brasileiras:

  • Sucos em caixinha e néctares
  • Biscoitos recheados e salgadinhos de pacote
  • Embutidos (salsicha, mortadela, presunto fatiado)
  • Macarrão instantâneo
  • Refrigerantes e bebidas adoçadas
  • Iogurtes com aromatizantes e corantes
  • Pães de forma com lista de ingredientes muito longa

O problema não está em consumir esses produtos eventualmente. O problema está quando eles se tornam a base da alimentação: e, conforme os dados do estudo, respondiam por mais de um quarto de toda a energia consumida pelas participantes.

A gravidez não exige uma dieta perfeita. Exige uma dieta adequada, adaptada à sua rotina, à sua história e ao seu momento.
Dra. Claudia Choma · Consultório, abril 2026
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Uma das armadilhas mais comuns

É a gestante que tenta seguir uma dieta rígida e "perfeita", e, ao primeiro deslize, abandona tudo com sentimento de culpa. Isso é contraproducente. O objetivo do acompanhamento nutricional na gestação é estruturar um plano realista, adaptado à rotina e à realidade alimentar de cada paciente. Não se trata de proibir, mas de substituir gradualmente, com consciência e sem sofrimento.

O que realmente importa

Com base em evidências atualizadas, os pilares de uma boa nutrição na gestação são:

  1. Ferro e ácido fólico: para prevenir anemia materna e defeitos do tubo neural
  2. Ômega-3: essencial para o desenvolvimento neurológico do bebê
  3. Cálcio e vitamina D: formação óssea e prevenção de pré-eclâmpsia
  4. Proteínas de qualidade: para o crescimento fetal adequado
  5. Fibras: controle glicêmico e prevenção de constipação
  6. Hidratação adequada: frequentemente subestimada

Esses pilares não exigem uma dieta sofisticada. Exigem escolhas consistentes, feitas com orientação profissional.

Dica de consultório

Quando buscar orientação nutricional?

O ideal é iniciar o acompanhamento antes mesmo de engravidar, o estado nutricional pré-concepcional impacta diretamente as primeiras semanas de gestação, o período mais crítico para o desenvolvimento embrionário, antes mesmo de a maioria das mulheres saber que está grávida. Mas nunca é tarde: mesmo no terceiro trimestre, ainda é possível fazer diferença no peso do bebê ao nascer, na qualidade do leite materno e na recuperação pós-parto.

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Para concluir

Comer bem na gravidez não é seguir uma lista de proibições, é construir, com orientação especializada, um padrão alimentar que se adapte à sua rotina e à sua realidade. Sem terrorismo, sem permissividade. Ciência aplicada com leveza e respeito à individualidade de cada mulher.

Para orientação individualizada, estou disponível para atendimento presencial em Curitiba e por videochamada para pacientes do Brasil e do exterior.

Perguntas frequentes
Grávida pode comer ultraprocessados de vez em quando?

Pode. O problema não é o consumo eventual, é quando esses produtos viram a base da alimentação. No estudo que publicamos em 2024, eles representavam quase 27% da energia consumida pelas gestantes avaliadas, e é esse padrão que aumenta riscos para o bebê.

O que é um bebê GIG e por que isso importa?

GIG significa grande para a idade gestacional. No estudo com 214 gestantes de Curitiba, cada 1% a mais de ultraprocessados na dieta aumentou em 2,7% o risco de o bebê nascer GIG, condição associada a complicações no parto e a maior propensão a obesidade e diabetes na vida adulta.

Quando devo começar o acompanhamento nutricional na gestação?

O ideal é antes de engravidar, porque o estado nutricional pré-concepcional impacta as primeiras semanas, as mais críticas do desenvolvimento embrionário. Mas nunca é tarde: mesmo no terceiro trimestre ainda é possível melhorar o peso do bebê ao nascer, a qualidade do leite materno e a recuperação pós-parto.

Sobre quem escreveu
Dra. Claudia Choma

Nutricionista Materno-Infantil há mais de 37 anos. Pós-doutora pelo IARC/OMS (Lyon, França). Doutora pela UFPR. Ex-Professora Titular do Departamento de Nutrição da UFPR (1992–2026). Ajudou a escrever o Guia Alimentar para Crianças Menores de 2 Anos do Ministério da Saúde. CRN 8-320.