Uma parte do meu trabalho, além do consultório, é dar formação para merendeiras sobre alimentação de crianças menores de 2 anos. Monto o material eu mesma, com base no Guia Alimentar do Ministério da Saúde e nas resoluções do PNAE, e levo isso para quem cozinha nas creches. É sempre a mesma conversa, e ela gira em torno de uma coisa só: o prato do bebê fora de casa.
O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos tem doze passos. O décimo primeiro diz, com todas as letras, para oferecer à criança alimentação adequada e saudável também fora de casa. Quase ninguém comenta esse passo. A gente fala muito de introdução alimentar dentro de casa, de papinha, de BLW, de seletividade, e quase nada sobre o prato que a criança come na creche, cinco vezes por semana, com alguém que a mãe nunca escolheu e talvez nunca converse.
Não é falta de cuidado. É falta de vocabulário. A mãe que fez introdução alimentar com atenção em casa entrega o resto no escuro, porque ninguém deu a ela as perguntas certas para fazer.
O tamanho real do problema
O ENANI-2019, o maior inquérito nacional de nutrição infantil já feito no Brasil, com 14.558 crianças em 123 municípios, mostra um retrato que vale a pena olhar de frente antes de continuar.
das crianças brasileiras de 6 a 23 meses consumiram algum alimento ultraprocessado no dia anterior à entrevista. No mesmo estudo, 22,2% não comeram nenhuma fruta nem hortaliça naquele dia.
Não é que a creche seja vilã nessa história. É que o ultraprocessado virou paisagem na vida da criança brasileira, dentro e fora de casa. E é exatamente por isso que o prato fora de casa importa tanto quanto o prato de casa. Se os dois lados empurram para o mesmo lugar, o hábito se forma rápido, e depois é difícil desfazer, seja na relação com a comida, seja no peso que a criança carrega mais adiante.
Essa fase também é a janela em que mais aparecem deficiências de ferro, vitamina A e cálcio, então o cardápio da creche pesa até na prevenção da anemia.
O que precisa estar no prato, de 6 a 24 meses
No que eu ensino nas formações, a refeição principal, a partir dos 6 meses, precisa ter quatro grupos: um cereal ou raiz e tubérculo, um feijão, um ou mais legumes e verduras, e um alimento do grupo das carnes e ovos. Fruta e água entram nas pequenas refeições, e as quantidades crescem com a idade e com os sinais que a própria criança dá.
A frequência de refeições também muda com a idade:
- Aos 6 meses: cerca de 3 refeições
- De 7 a 11 meses: cerca de 4 refeições
- De 1 a 2 anos: cerca de 5 refeições
Isso já dá o primeiro ponto de checagem simples: se o seu filho está em período integral, ele deveria estar recebendo pelo menos 3 refeições por dia na creche, não uma ou duas.
A textura ensina tanto quanto o ingrediente
Esse é o ponto que eu mais insisto nas formações, e que quase ninguém fala fora delas. Depois dos 6 meses, a comida não deve ser liquidificada nem peneirada. A consistência precisa evoluir, e isso não é detalhe, é parte do aprendizado:
- 6 meses: comida bem amassada com garfo, carnes bem picadas
- 7 a 8 meses: comida menos amassada, pedaços macios
- 9 a 24 meses: comida picada, cada vez mais parecida com a da família
A regra de ouro que eu repito para as merendeiras é simples: a comida deve ser espessa o suficiente para ficar na colher, e segura para mastigar. Sopa rala, papinha liquidificada, tudo igualzinho de um lado ao outro do prato, isso empobrece a experiência da criança com a comida de verdade.
Papinha liquidificada não é comida mais segura, é comida mais fácil para o adulto. A criança que só recebe textura lisa até o primeiro ano chega mais despreparada para a comida de verdade, e depois a gente chama isso de seletividade.Dra. Claudia Choma · Consultório
A régua que o país já definiu (e que quase ninguém usa)
Em fevereiro de 2026, o FNDE publicou a Resolução CD/FNDE nº 4/2026, que reescreveu as regras da alimentação escolar financiada com dinheiro público. Para menores de 3 anos, ela proíbe a oferta de alimentos ultraprocessados e a adição de açúcar, mel e adoçante nas preparações e bebidas. Também exige que o cardápio da creche mostre a consistência das preparações, não só os ingredientes. E define um mínimo: creche em período parcial precisa oferecer ao menos 2 refeições cobrindo 30% das necessidades nutricionais da criança, e período integral, ao menos 3 refeições cobrindo 70%.
Preciso ser precisa aqui, porque é fácil errar essa parte. Essa resolução vale para quem recebe repasse federal do PNAE: rede pública, e instituições conveniadas que recebem o recurso. Creche particular, paga direto pela família, não está obrigada por essa norma. Ela se rege pela vigilância sanitária e pelo contrato com os pais.
Só que isso não torna a norma irrelevante para quem paga uma creche particular. Pelo contrário. É o padrão mínimo que o próprio país definiu como aceitável para alimentar um bebê fora de casa, e o Estado brasileiro gasta dinheiro público garantindo esse padrão. É a melhor régua de comparação que existe. Se a creche que você paga não chega perto disso, é uma pergunta legítima a fazer, não uma exigência legal a cobrar. E dá para simplificar essa conversa: basta perguntar se a creche recebe algum recurso do PNAE. Se recebe, a norma vale integralmente para ela.
As armadilhas que eu mais vejo
A primeira é achar que mandar marmita de casa resolve tudo. Resolve o ingrediente, não resolve o ambiente da refeição nem a rotina da creche.
A segunda é achar que a creche é a inimiga. Na minha experiência formando merendeiras, a maioria delas quer muito acertar, e simplesmente ninguém explicou para elas o porquê de cada orientação. Tratar a merendeira como aliada rende muito mais do que tratá-la como suspeita.
A terceira é assumir que "ele não come na creche" é sempre culpa da creche. Às vezes é a consistência errada para a idade dele, às vezes é o intervalo entre as mamadas, às vezes é só adaptação a um lugar novo.
E a quarta é o oposto: achar que, se ele come bem na creche e recusa em casa, o problema é birra. Na creche ele come sentado, no mesmo horário, junto com os outros, sem tela e sem ninguém correndo atrás dele com a colher. Antes de mudar o cardápio de casa, vale olhar o contexto da refeição.
O que realmente importa fazer
- Peça o cardápio e veja se ele indica a consistência das preparações, não só os ingredientes.
- Pergunte quantas refeições o seu filho recebe por dia e em quais horários.
- Alinhe por escrito o que não pode entrar na comida dele (açúcar, mel, biscoito, suco), especialmente se a creche for particular.
- Combine o manejo do leite materno ordenhado, se for o caso do seu filho.
- Pergunte como é o ambiente da refeição: as crianças ficam sentadas, sem tela ligada?
As 6 perguntas para fazer na visita à creche
1. O cardápio dos menores de 2 anos indica a consistência das preparações, ou só os ingredientes?
2. Quantas refeições meu filho recebe por dia e em quais horários?
3. Vocês adicionam açúcar, mel ou adoçante em alguma preparação para menores de 3 anos?
4. A creche recebe recurso do PNAE? Se sim, as regras da Resolução nº 4/2026 valem integralmente.
5. Como vocês lidam quando a criança recusa o alimento?
6. Como é o ambiente da refeição? As crianças ficam sentadas? Tem TV ou tela ligada?
Para concluir, com honestidade
A merendeira é provavelmente a profissional mais invisível na cadeia de cuidado do seu filho, e uma das mais decisivas. Ela não aparece na foto da creche, não dá entrevista para o boletim, e ainda assim decide, prato a prato, boa parte do que aquela criança vai aceitar comer daqui a alguns anos.
O trabalho da mãe não é vigiar essa pessoa. É se informar o suficiente para alinhar com ela. E boa parte do paladar que o seu filho vai ter aos 3 anos está sendo decidida agora, ao mesmo tempo, no prato da creche e no prato da sua cozinha.
Se você está prestes a colocar seu filho na creche e quer chegar nessa conversa com clareza, ou se ele já está e alguma coisa não está fluindo, é disso que eu cuido. Atendo presencialmente em Curitiba e por videochamada para o Brasil e o exterior.
O que a creche deve oferecer para um bebê de 6 meses?
A partir dos 6 meses, a refeição principal precisa ter os quatro grupos: um cereal ou raiz e tubérculo, um feijão, um ou mais legumes e verduras, e um alimento do grupo das carnes e ovos. Além disso, fruta nos lanches e água nos intervalos. O leite materno continua, e a frequência recomendada é de cerca de três refeições aos 6 meses, quatro entre 7 e 11 meses e cinco entre 1 e 2 anos.
Posso mandar a comida do meu bebê de casa para a creche?
Depende da política da instituição, e vale conversar antes. Só que mandar marmita resolve o ingrediente e não resolve o resto: a consistência de como aquilo será servido, o intervalo entre as refeições e o ambiente em que a criança vai comer. Na minha experiência, alinhar com a creche costuma render mais do que substituir a creche.
É verdade que a creche não pode colocar açúcar na comida de criança pequena?
Na rede pública e conveniada, sim. A Resolução CD/FNDE nº 4/2026 proíbe, para crianças de até 3 anos, a oferta de alimentos ultraprocessados e a adição de açúcar, mel e adoçante nas preparações e bebidas. Creche particular não é obrigada por essa norma, mas ela é o melhor parâmetro que existe. Se a creche que você paga não segue, é uma conversa legítima de se ter.
A comida da creche está muito mole. Isso é problema?
Pode ser. Depois dos 6 meses a comida não deve ser liquidificada nem peneirada, e a consistência precisa evoluir com a idade: bem amassada com garfo aos 6 meses, menos amassada ou bem picada dos 7 aos 8, e picada, cada vez mais parecida com a da família, dos 9 aos 24 meses. A regra prática é que a comida fique espessa o suficiente para permanecer na colher. Textura também é aprendizado.
Meu filho come na creche e recusa em casa. Por quê?
É mais comum do que parece, e quase nunca é birra. Na creche ele come sentado, no mesmo horário todo dia, junto com outras crianças, sem tela e sem ninguém correndo atrás com a colher. Em casa costuma ser outra história. Antes de mudar o cardápio, vale olhar como é o momento da refeição.


