Quando um bebê nasce prematuro, sua família recebe um conjunto de informações médicas, orientações e procedimentos que dificilmente existiriam em um nascimento a termo. Entre todas essas informações, há uma que muitas famílias não recebem com a clareza necessária: o bebê prematuro não segue o mesmo relógio que um bebê nascido na hora certa.

Essa diferença de tempo, chamada de idade corrigida: tem implicações diretas e significativas para a alimentação. Em 2022, o estudo que orientei no Hospital Universitário de Curitiba, publicado na Revista Paulista de Pediatria, mostrou que a maior parte das famílias não está fazendo esse ajuste corretamente. E as consequências aparecem nos padrões alimentares que essas crianças desenvolvem.

O que é a idade corrigida, e por que ela importa

A idade corrigida (também chamada de idade gestacional corrigida) é calculada a partir da data prevista para o nascimento, não da data em que o bebê nasceu. Um bebê que nasceu com 28 semanas de gestação, por exemplo, terá 40 semanas de desenvolvimento no momento em que completar 3 meses de vida cronológica. Mas sua idade corrigida, nesse momento, é de zero semanas, ou seja, recém-chegado ao mundo do ponto de vista do desenvolvimento biológico.

Para a introdução alimentar, isso significa que a recomendação de iniciar a alimentação complementar "aos 6 meses" não se conta a partir do dia do nascimento. Conta-se a partir da data em que o bebê deveria ter nascido.

65,7%

dos bebês prematuros acompanhados no estudo já recebiam alimentos sólidos antes dos 6 meses de idade corrigida, antes, portanto, do momento em que seus sistemas digestivos e motores estavam prontos para essa transição. Filhos de mães com menos de 20 anos apresentaram padrão alimentar menos saudável com significância estatística.

O estudo: 135 crianças prematuras no Hospital Universitário de Curitiba

A pesquisa acompanhou 135 crianças entre 6 e 23 meses de idade corrigida, nascidas prematuras no Hospital Universitário de Curitiba. Por meio de inquéritos alimentares aplicados às mães ou cuidadores, identificamos os padrões alimentares dessas crianças e os fatores associados.

Os achados revelaram dois padrões predominantes:

  • Padrão saudável: mais frequente em filhos de mães com 30 anos ou mais, com maior escolaridade e que amamentaram por mais tempo.
  • Padrão não saudável: significativamente mais prevalente em filhos de mães com menos de 20 anos e em crianças com menor idade gestacional ao nascer, ou seja, os bebês mais prematuros.

Outro dado importante: apenas 24,4% das crianças da amostra continuavam sendo amamentadas no período da avaliação, um número muito abaixo do recomendado, especialmente considerando os benefícios específicos do leite materno para bebês prematuros.

O tempo do bebê prematuro é o tempo corrigido. Quando não respeitamos esse relógio, antecipamos exigências que o organismo ainda não está preparado para atender.
Dra. Claudia Choma · Revista Paulista de Pediatria, 2022
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Como a introdução alimentar é diferente no bebê prematuro

Além do ajuste de tempo, a introdução alimentar em bebês prematuros exige atenção a aspectos que não costumam ser relevantes para bebês nascidos a termo:

  • Maturidade digestiva: o trato gastrointestinal do prematuro completa seu desenvolvimento fora do útero. A capacidade de digerir e absorver diferentes alimentos não segue o mesmo ritmo de um bebê a termo.
  • Reflexos orais: a coordenação da sucção, deglutição e respiração, base para a alimentação oral, desenvolve-se completamente apenas perto das 40 semanas de idade gestacional. Bebês muito prematuros podem ter alterações que persistem além desse marco.
  • Necessidades nutricionais específicas: prematuros, especialmente os de muito baixo peso ao nascer, têm demandas aumentadas de proteína, ferro, cálcio e vitamina D que precisam ser contempladas no plano alimentar desde o início.
  • Risco de seletividade alimentar: experiências orais adversas nos primeiros meses de vida, procedimentos hospitalares, sondas, ventilação, podem aumentar a sensibilidade oral e dificultar a aceitação de novas texturas na introdução alimentar.
Dica de consultório

Quando buscar orientação nutricional especializada

Todo bebê prematuro se beneficia de acompanhamento nutricional individualizado. Em especial, busque avaliação quando: o bebê recusa alimentos com determinadas texturas persistentemente; o ganho de peso está abaixo da curva de crescimento esperada para sua idade corrigida; há dúvida sobre quando iniciar ou como conduzir a alimentação complementar; ou quando a amamentação precisar ser interrompida antes do planejado. Quanto mais prematuro o bebê, mais personalizada precisa ser a orientação.

O papel da idade materna nos padrões alimentares

Um achado que merece destaque no estudo é a associação entre a idade materna e a qualidade do padrão alimentar da criança. Mães mais jovens, especialmente as que tinham menos de 20 anos no momento do parto, foram significativamente mais associadas ao padrão alimentar não saudável nos filhos.

Isso não é um julgamento. É um dado que aponta para onde o suporte precisa chegar: famílias mais jovens, com menos acesso a informação qualificada, com menos rede de apoio estruturada, enfrentam as demandas de um bebê prematuro com menos recursos disponíveis. O acompanhamento profissional adequado pode fazer diferença concreta nesses casos.

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Para concluir

Bebê prematuro que começa a comer antes da hora não está adiantado, está em risco. A introdução alimentar respeitosa do tempo de desenvolvimento do bebê prematuro, feita com base na idade corrigida e nas necessidades específicas da prematuridade, é um investimento direto em saúde que vai além dos primeiros anos de vida.

Para orientação sobre alimentação em bebês prematuros, estou disponível para atendimento presencial em Curitiba e por videochamada para pacientes do Brasil e do exterior.

Perguntas frequentes
O que é idade corrigida?

É a idade contada a partir da data em que o bebê deveria ter nascido, não da data do parto. É ela que orienta o desenvolvimento e a alimentação do bebê prematuro.

Quando começa a introdução alimentar do bebê prematuro?

Aos 6 meses de idade corrigida, não de idade cronológica. No estudo que orientei no Hospital Universitário de Curitiba, 65,7% dos bebês prematuros recebiam alimentos sólidos antes desse marco, antes de o sistema digestivo e motor estar pronto.

A introdução alimentar do prematuro é diferente?

Sim. Além do ajuste de tempo, é preciso considerar a maturidade digestiva, os reflexos orais e as necessidades aumentadas de proteína, ferro, cálcio e vitamina D. Por isso o acompanhamento individualizado faz diferença.

Sobre quem escreveu
Dra. Claudia Choma

Nutricionista Materno-Infantil há mais de 33 anos. Autora correspondente do estudo "Dietary patterns and associated factors of children under two years of age born prematurely" (Revista Paulista de Pediatria, 2022). Co-autora do Guia Alimentar para Crianças Menores de 2 Anos do Ministério da Saúde. Pós-doutora pelo IARC/OMS (Lyon, França). CRN 8-320.